Ações cíclicas na bolsa: como gerenciar riscos em setores de alta volatilidade?

O mercado financeiro reflete a dinâmica do ambiente econômico por meio da cotação dos ativos negociados em bolsa. Nesse contexto, as ações cíclicas pertencem a setores cujas receitas e lucros tendem a apresentar maior sensibilidade às diferentes fases do ciclo.

Ações cíclicas na bolsa: como gerenciar riscos em setores de alta volatilidade?
Ações cíclicas na bolsa: como gerenciar riscos em setores de alta volatilidade?

A volatilidade acentuada dessas empresas em bolsa reflete alterações no poder de compra das famílias, na trajetória das taxas de juros, no nível de emprego e na oferta de crédito. Em momentos de aquecimento econômico, segmentos voltados ao consumo discricionário tendem a se beneficiar desse movimento, como observado na trajetória da Magazine Luiza (MGLU3) em fases de expansão do consumo e maior acesso ao crédito.

Períodos de desaceleração econômica podem reduzir o consumo, pressionar as receitas e comprometer as margens operacionais dessas companhias. Compreender a sensibilidade desses negócios frente ao cenário macroeconômico representa o passo inicial para estruturar estratégias adequadas de gestão de riscos.

Este conteúdo possui caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento.

Diferencie empresas cíclicas e não cíclicas no mercado

A classificação operacional das companhias listadas na B3 divide os negócios de acordo com a sensibilidade de suas receitas ao cenário econômico. As empresas não cíclicas, também conhecidas como defensivas, atuam em setores caracterizados pela demanda constante, mesmo durante períodos de recessão, como energia elétrica, saneamento básico e bens de consumo não duráveis essenciais (como alimentos básicos).

Empresas cíclicas, como as de eletrodomésticos, do setor automotivo, de vestuário, construção civil e turismo, ofertam bens e serviços diferíveis, cuja aquisição pode ser adiada pelo consumidor em momentos de incerteza financeira. 

Em fases de expansão econômica, a elevação do emprego e o aumento de crédito multiplicam o faturamento desses negócios, enquanto, nas fases de contração, a queda do consumo comprime as margens operacionais e reduz o lucro das companhias.

Avalie o impacto da taxa Selic e da inflação nas margens 

As variáveis macroeconômicas acompanhadas pelo Banco Central do Brasil (BCB), como a taxa básica de juros (Selic) e o Índice Nacional de Preços do Consumidor Amplo (IPCA, apurado pelo IBGE), exercem influência direta sobre a viabilidade operacional do setor cíclico. 

A elevação da taxa Selic aumenta a taxa de desconto aplicada nos modelos de avaliação de empresas, além de restringir a demanda consumidora por crédito de longo prazo e aumentar as despesas financeiras de companhias endividadas.

O aumento dos custos operacionais, combinado com a dificuldade de repassar custos ao consumidor final em momentos de demanda desaquecida, pressiona o Lucro Antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização (EBITDA) e a rentabilidade do patrimônio líquido (ROE). 

O movimento inverso ocorre em ciclos de corte da Selic e estabilização da inflação, ambiente no qual a redução do custo do crédito atua como estímulo para a recuperação das margens operacionais e expansão das receitas dessas empresas.

Mantenha uma estratégia sólida de diversificação 

Pela Teoria Moderna de Portfólio (TMP), a diversificação entre ativos com diferentes níveis de correlação busca reduzir o risco não sistêmico. Já a concentração em empresas cíclicas pode ampliar as oscilações da carteira em períodos de desaceleração econômica ou juros elevados.

O contraponto para proteger a estrutura patrimonial envolve equilibrar a exposição ao risco. Nesse contexto, acompanhar os relatórios e análises de mercado da Genial Investimentos auxilia a compreender o impacto macroeconômico sobre diferentes classes de ativos e a estruturar uma carteira resiliente.

Uma abordagem é combinar ações voláteis com ativos de renda fixa, sejam eles pós-fixados ou atrelados aos índices de inflação, e papéis de companhias defensivas. Essa diversificação busca preservar a liquidez operacional e oferecer amortecimento financeiro, permitindo atravessar cenários adversos sem a necessidade de liquidar posições em momentos desfavoráveis de mercado. 

Analise os indicadores de endividamento

Para avaliar a capacidade financeira de uma empresa cíclica em cenários recessivos, é importante observar sua estrutura de capital. A relação entre Dívida Líquida e EBITDA indica o nível de alavancagem da companhia, enquanto o Índice de Cobertura de Juros ajuda a medir a capacidade de arcar com as despesas financeiras.

A alavancagem financeira pode ampliar tanto retornos quanto riscos. Quando os recursos financiados geram retorno superior ao custo da dívida, podem favorecer a expansão dos negócios e o retorno sobre o patrimônio.

Em períodos adversos, porém, o endividamento elevado pode pressionar o caixa e aumentar o risco financeiro. Por isso, a análise fundamentalista considera fatores como nível de endividamento, liquidez e cronograma de vencimentos.

Estabeleça limites de exposição alinhados ao perfil de risco

A definição do percentual alocado em ações cíclicas deve respeitar a análise de adequação ao perfil do investidor e os objetivos financeiros estabelecidos. A oscilação frequente nos preços das ações cíclicas pode afetar o comportamento do investidor, induzindo a decisões impulsionadas por momentos de estresse de mercado.

Determinar limites operacionais para a exposição a ativos voláteis evita a concentração excessiva do patrimônio. Além disso, o acompanhamento periódico da carteira permite verificar se a alocação permanece compatível com o perfil de risco e os objetivos financeiros definidos.

Rebalanceamento periódico para disciplinar a compra e venda

O rebalanceamento de carteira por intervalos de tempo ou por faixas de oscilação atua como instrumento operacional de gestão de risco. Quando as ações cíclicas apresentam forte valorização e ultrapassam o percentual teto definido para o portfólio, o procedimento orienta a realização parcial de lucros e a redistribuição dos recursos em classes de ativos que estejam abaixo das metas estabelecidas.

Durante fases prolongadas de baixa do ciclo econômico, o método permite adquirir gradualmente papéis de empresas fundamentadas por preços descontados. Essa disciplina operacional busca afastar vieses emocionais da tomada de decisão, mantendo a consistência do gerenciamento de risco ao longo das variações do mercado financeiro.

Madson Nei